Algumas linhas

PASSEGGIATA ROMANA
 
Comincia a far buio, lui dice - Vai via, respira un po’ - e esco di scatto, presa la borsa e la sciarpa, senza precisa destinazione.
 
Piedi fuori in Via della Penna, passo di fronte al sarto, elegante e meticoloso, che oltre il vetro liscia il tessuto verde con mani sapienti prima di tagliarlo. Proprio affianco, il ristorante preparasi per ricevere i clienti della serata, le aragoste belle rosse sulla vetrina. 
 
Ho voglia di andare sulle piccole vie, assorbendo dettagli, finestre, portoni, balconi, fontane, statue, persone, atteggiamenti. Camino più piano del solito, lo sguardo in alto, in basso, dappertutto, i pensieri che svagano. Ho le mani in tasca e veramente respiro, con leggerezza.
 
Evito Via del Corso, che fra un’ora sarà un’assoluta pazzia. Vado su Via di Ripetta, poi traverso veloce Via del Corso per arrivare alla metà di Via del Babuino. Passo davanti al Baretto, e l’andirivieni di romani allegri e rumorosi in quel piccolo caffè mi fa sorridere.
        
Seguo fino a Piazza Spagna e finisco per prendere a destra in Via Condotti, ma percepisco subito l’errore, la via è affollata di turisti e le boutiques costose di vetrine abbaglianti non m’interessano affatto. Temo che l’agitazione eccessiva mi faccia dimenticare la linea dei miei pensieri, che ormai creano una specie di narrativa. Dunque scappo.
 
Ando senza logica, senza seguire un percorso razionale. Seguo il consiglio di Stendhal di vagare avendo come unico metodo la ricerca del piacere, prendendo questa o quella via a dipendere dallo stato d’animo di un singolo istante.
 
A volte camino piano, meravigliandomi, altre volte faccio finta di essere del tutto indifferente alle bellezze intorno, ando più veloce e molto determinata, come se ci andassi tutti i giorni. E mi piace che gli altri pensino che io sia "del posto”. Credo proprio che rappresento bene, perché una ragazza dalla fisionomia indiana mi ferma e chiede “how to get to Spanish Steps” - e la do’ coordinate precise.
 
Erling Kagge, scrittore norvegese e autore, fra altri, del libro “Camminare”, a cui piace indovinare le personalità e lo stato di spirito delle persone osservando il loro modo di andare, avrebbe qualche difficoltà ad interpretarmi, tanto cambio il ritmo dei miei passi e il mio stesso atteggiamento.
 
Mi sorprendo che le parole mi vengano naturalmente in italiano, e non in portoghese. Lascio che vengano liberi e incerte.
 
Mentre cammino, ho paura di dimenticare le frasi intere che sto a creare ad ogni passo e sguardo. Penso: devo entrare in un negozio qualsiasi, comprare un quaderno qualsiasi, entrare in un minuscolo (non turistico) caffè e mettermi a scrivere. Prima che i pensieri volino via per sempre, come a me succede spessissimo.
 
Ma non lo faccio, non subito almeno. Mi ritrovo di fronte alla Librerie Française de Rome - detta anche Librerie Stendhal (proprio lui) - dove mi piaceva andare in quegli anni lontani. Dentro la libreria è così accogliente, le luci morbide, che non posso fare a meno di entrarci. Mi metto a leggere la copertina di alcuni libri (in francese) mentre ascolto la conversazione dei clienti (in francese) e mi vieni la vertigine. Le parole in italiano cominciano ad evaporare dalla mia mente, come appunto temevo.
 
Dopo un timido “bonsoir-merci” al proprietario della libreria, attendo la chiamata di J. che dice - Ci incontriamo fra 15 minuti con il Professore al caffè della Feltrinelli. Arrivo 5 minuti in anticipo, mi compro un piccolissimo quaderno da 1 euro e 60, scelgo un tavolino al caffè della libreria e con certa disperazione comincio a scrivere. Scritta la prima frase… ecco che arrivano tutti - e nascondo nella borsa quaderno e pensieri.
 
Letícia Möller
Roma, 13 febbraio 2019
BIANCO

Mi ritrovo in questa bianca solitudine
che sa di vento e di traccie
nel silenzio.

Il cuore si allegerisce
in questa pace improvisa.

Il pensiero non trova confine
nelle ampiezze morbide
dove viaggia lo sguardo.

È poetica la neve,
rissuona di altri tempi e persone
nel paesaggio immobile.

Io resto ferma
come una statua antica di marmo bianco,
le labbra pietrificate quale il gelo.

Sono solo silenzio e pensiero
e sogni sfuggenti.
Non mi muovo per niente.

Quasi non respiro.

Voglio stare così.

Letícia Möller

Pienza, fevereiro de 2012

RETORNAR E REENCONTRAR(-SE)

Potevo spiegare a qualcuno che quel che cercavo era soltanto di vedere qualcosa che avevo già visto? (…) Per me, delle stagioni eran passate, non degli anni. Più le cose e i discorsi che mi toccavano eran gli stessi di una volta, (…) più me facevano piacere.

 

(Cesare Pavese, “La luna e i falò”)


Era como se nós nunca tivéssemos ido embora.
 

Aqueles anos, que aqui desfiavam suas estações infindáveis, como que se condensaram num instante. Como um parêntese, que não eliminava a continuidade da experiência. Uma breve pausa, e não uma ruptura.
 

Era como se tivéssemos estado sempre lá. E a sensação de perda, de que algo precioso tinha sido subtraído para sempre, deu lugar a algo diferente.
 

Quando foi exatamente que a mágica aconteceu? Não quando o avião tocou a pista, nem quando chegamos com o carro alugado e começamos a reconhecer cada esquina. Aí a sensação ainda era outra. A emoção por estar de volta.
 

Mas a sensação poderosa e surpreendente de que todos aqueles anos tinham se contraído numa pequena fração de tempo começou num momento preciso: quando descemos do carro com as malas e inalamos o ar da cidade. Aquele cheiro que não era especialmente bom ou ruim, mas que era o cheiro que a vida tinha lá. Nunca tinha prestado atenção naquele odor das ruas. Mas era ele que agora fisgava nossas almas a um só tempo, inconfundível. Nossa particular madeleine.
 

Era como se os nossos pés não tivessem deixado de pisar aquelas calçadas, nem nossos olhos se apartado das paredes de pedra amarela, as fachadas antigas, os cafés elegantes, as livrarias de rua, o comércio pulsante.
 

Essa sensação trouxe um conforto muito grande, um apaziguamento absoluto, como uma espécie de embriaguez que durou por dias. Não queríamos que passasse.

Era como se a cidade nos dissesse: ainda é tempo. Sempre é tempo de retornar.
 

Agradeço por ela quase não ter mudado. Por nos permitir reencontrar lugares, fachadas, letreiros, ambientes. O jardim público igual em beleza e cuidado. O Caffè Raphael, extensão da nossa casa, com a dupla imbatível cornetto alla crema e cappuccino. A Palmieri, livraria caótica e de excelente acervo, onde dispendíamos horas explorando as pilhas de livros e negociávamos dolorosamente com nossos bolsos. A Locanda Rivoli, sempre aberta para saciar a fome depois das aulas, com seus antepastos e massas a preço justo. Eu só queria que tudo

continuasse na sua forma e lugar devidos, num sentimento absurdo de posse: a cidade não nos traiu, nos esperou imutada.
 

Retornando, reencontramos e reconhecemos. Mas fundamentalmente, para além do reencontro com exteriores afetivos, reencontramos algo de nós mesmos. Reconhecemos uma faísca que julgávamos perdida. Uma paixão pelas coisas. Um olhar amplo e otimista para o mundo. Uma crença na potência da vida e na potência dos nossos sonhos.
 

Ao retornar, reencontramos nossos antigos anseios, desejos, ambições e projetos para o futuro. Voltamos a uma época onde tudo parecia possível; nosso potencial, ilimitado. Faríamos grandes coisas, conquistaríamos o que nossas almas ditassem. Sabíamos quem éramos e o que queríamos da vida, e nos realizaríamos plenamente. Não tínhamos dúvida.
 

Estar de volta era sentir mais uma vez que tudo era possível. Que ainda era tempo. Que valia a pena resgatar nossos sonhos. Mesmo que os últimos anos tivessem nos comprimido contra a parede da dura realidade. Uma doce sensação.
 

Como era possível que a vida na nossa terra natal nos tivesse estreitado os horizontes, sugado nossa energia vital, ofuscado a crença na possibilidade de ser o que éramos ou o que desejávamos ser? De repente nos sentíamos apenas parte de um sistema, peças de uma engrenagem. Engolidos por uma rotina massacrante, numa ilógica e permanente corrida para sobreviver, vencer, ter. O sentimento de estar eternamente em dívida, sem nunca dar conta, nunca fazer o bastante, nunca ter o bastante, nunca ser bom o bastante.
 

Para onde diabos fora a confiança em quem éramos e no que queríamos, o sentimento de liberdade para regermos a vida do nosso jeito?
 

De repente nos sentíamos estrangeiros em nossa própria casa. E o sentido das nossas vidas parecia ter fincado bandeira do outro lado do Atlântico. Aquele recente apanhado de memórias, da vida que ali vivemos um dia, ganhava um peso decisivo, um valor definitivo, impondo sua soberania sobre as nossas raízes. Estar de volta, longe de casa, era agora estar mais em casa do que nunca. A sensação de pertencimento se fragmentava, quase se deslocava. Sentíamos que esse fascinante pedaço de terra no mediterrâneo nos pertencia, e assim a ele também nossa alma, a partir de uma intensa afinidade espiritual, intelectual, emotiva.
 

Estávamos de volta, mas não iria durar. Nos permitíamos a doce vertigem, mas a sabíamos efêmera. Logo teríamos que fazer as contas com a nossa terra. Cavar fundo e reencontrar, aqui também, algo valioso, nossas raízes mais profundas e autênticas. Reavivar o lugar que é delas de direito, nesse arabesco em que nos transformamos, para encará-las não como um impedimento, mas como algo que de algum modo nos decifra. Lutar contra o retorno de velhos receios, rótulos, pequenezas. Romper o contrato de adesão com o sistema que aprisiona, na tentativa de conciliar as adaptações e concessões da “vida real” por aqui com o resgate dos nossos sonhos e projetos de vida. Só assim, desse lado do Atlântico, poderíamos nos sentir livres para sermos nós mesmos, ou nos expandirmos em múltiplas e ousadas direções. Reconstruir, aqui também, nossa casa e nosso ser.

Letícia Möller

Porto Alegre, 2013

OUTRA ESTAÇÃO
Vejo o outono transformar-se em inverno. Assim, num piscar de olhos, no instante de um bocejo. Da janela da casa toscana, espio os ciprestes que se inclinam solenes à força do vento. Meus olhos alcançam os vinhedos logo ali, ramos nus já desprovidos das folhas amarelas e vermelhas. Esplêndidas cores de um outono fugaz, que deslizam à terra sem dar aviso, sem despedida.
Quando vejo, é inverno. O jardim mais austero. Ao longe, os picos das montanhas cobertos de neve. A lenha sendo consumida diariamente, crepitando sob o fogo, espalhando seu cheiro forte pela casa. Doce aconchego do lar, a manta no colo a aquecer as páginas do livro, ou sobre os ombros a embrulhar quem escreve.
Mas a melancolia bate à porta, espreita-nos por entre as frestas, teima em querer entrar. Sensação de adeus, de coisas que não voltam mais, de um ciclo que se fecha, a ansiosa expectativa de um novo recomeço. Outra estação.
Não, nos deixe estar. Ainda um pouco, somente. Protegidos, escondidos em nosso refúgio. Casa no fim da estrada, depois da descida, virando a curva. Redoma fora do tempo e do espaço.
Letícia Möller
Montepulciano, novembro de 2007
 
O DIA DOS PENSAMENTOS FUGIDIOS
A Josué, que decretou naquela segunda-feira
o dia dos pensamentos fugidios.
Quisera pintar este dia de cores enérgicas. Colorir a manhã de dourado, pincelar a tarde, encarnado. Sacudir o azul cinzento que como poeira assentou, como névoa encobriu o dia de tons melancólicos.
O pensamento é fugidio nesta manhã estranha, manhã sombria. Escorre lento como rio lodoso, parece dar o tempo de pegá-lo de jeito. Vã ilusão, aferrá-lo é impossível.
Quisera pensar pensamentos fortes, pensamentos intensos, pensamentos belos. Quisera fixar a ideia precisa, a forma adequada, o baile harmonioso das letras justas, o som cristalino da fala acurada.
O pensamento é esquivo neste dia de brumas, dia velado. É frágil, movediço, ameaça desertar.
Quisera pintar a manhã de cores sonoras, cores ruidosas. O esmeralda do riso, o laranja do brado, despertando as tentativas do pensar.
Mas tanto esforço é grão malogrado. Flagela o pensamento, todo o juízo mortificado, sob soturno manto sepultado.
Letícia Möller
Montepulciano, setembro de 2007
DEBAIXO DA TIBUCHINA
Nenhuma resolução de ano novo debaixo da tibuchina. 
Meus pés descansam sobre a grama. A abelha sobrevoa meus arredores. O beija-flor corteja a bromélia, regularmente. As araucárias seguem as mesmas. Imóveis, estes pilares silenciosos, guardiões do tempo, formam minha pessoal fortaleza.
(Sou eu que as observo ou sou por elas observada? Sinto que não me julgam, mas me compreendem)
Nenhuma resolução de ano novo debaixo da tibuchina.
O recomeço este ano é por demais evidente. Não requer o fixar de metas, e não aconselha o elencar de desejos.
Nada quero que não sentir, escutar, contemplar. Seguir o fluxo natural da vida. Ao menos por um átimo, precioso instante. Busco a harmonia com a terra, o verde, o ar. E assim com o mundo. É este mundo que me interessa, ora. Outros mundos hoje me importam pouco. Outras opiniões sobre o viver. Outras expectativas.
Não farei minhas alheias expectativas. Não pintarei meus dias com os tons do devido, do recomendável, do previsível.
Eis uma única resolução a gerar, quem sabe, debaixo da tibuchina.
Letícia Möller
Canela, janeiro de 2008

FOSTE

Foste,

deixando teu nome ecoando em meu ser,

marejando meus olhos,

Sophia.

Foste,

deixando no ar delicado perfume,

vestígio de roupas antigas, coisas vividas,

que vem visitar minha memória.

Foste,

deixando a presença da tua pele macia,

teu colo, abraço, tamanho aconchego,

onde me esconder do medo.

Foste,

deixando a lembrança da noite distante,

de bobos assombros no escuro do quarto,

só pude dormir quando sentaste ao meu lado.

Foste,

deixando a inútil vontade vazia

de um reencontro, saber como seria,

tudo o que agora não posso.

Foste,

deixando forte em mim o desejo

de conhecer o que foi esta vida,

que hoje assim tão discreta se finda.

Foste, Sophia,

para mim doçura e encanto,

e só o que acalenta meu pranto

é tua secular travessia.

Letícia Möller

Montepulciano, setembro de 2007

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